segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Espaço Especial: Morte em Vida (Elias Lima)

Chamam a maior parte do tempo, de morte, esta que vai me levar a qualquer momento de volta ao pó.
Meus pais estão me vendo diariamente. Sinto-me mais vivo agora do que antes de descobrir há seis meses que estou com leucemia.
Lá em casa, a gente mal se via. Mamãe estava sempre ocupada com os problemas do departamento que ela gerencia. Papai, por sua vez, não era diferente, dizia sempre que para me dar uma vida boa,
precisava se sacrificar.

Viviam falando ao celular e quase nunca me ouviam. Madalena, a empregada, sempre sentia pena de mim e não me deixava ficar triste. Embora ela tenha tentado evitar, eu me sentia invisível aos olhos deles.
Lembro de papai e mamãe indo na escola pra conversar sobre as mensalidades no início do ano e no final do ano, iam lá para me ver pegar o diploma, sempre exigindo que a professora não atrasasse
minha entrada.
Nunca foram a nenhuma reunião de pais. Acho que pior do que ser órfão é ter um pai e uma mãe que não sabem que você existe. Se ao menos eu fosse órfão, poderia fingir que os meus pais me abandonaram
por não terem condições de me criar. Mas eles têm condições!
E por que não me veem?

E nesses seis meses, após a descoberta da doença, que diagnosticamente só se agrava, eles desde então, estão loucos. “Como pode meu filho, tão bonito, tão saudável, estar tão doente?”
Mas que diferença esse desespero faz para mim?
Eu estava morto desde que nasci. Não me lembro de passear nos parques municipais com a minha mãe, de jogar boliche aos domingos com o meu pai.
A gente só se reunia nos finais de ano, onde nada do que era dito fazia sentido. Não me satisfaziam as palavras bonitas, roupas caras, abraços longos enquanto nos outros 364 dias do ano eu não sentia nada disso.
Sento-me aqui e escrevo isso para aliviar a minha angústia, esta sim, é a minha morte, definitivamente.
Sei que não conseguirei o transplante e isso não faz nenhuma diferença em minha consciência. Afinal, eu estou morto há 17 anos, mas ninguém viu.
Ninguém sentiu.

Mas eu senti.
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