sábado, 19 de dezembro de 2015

Teatro, o palco das superstições



Por Alain Viala

No teatro, mais do que em qualquer outra arte, a ficção pode, como as fórmulas mágicas, agir sobre o real. A ideia é antiga. É bem conhecida a teoria da catharsis (catarse), atribuída a Aristóteles: a representação de uma tragédia suscitaria emoções de medo e de piedade tão violentas que os espectadores se veriam “purgados” do que esses sentimentos pudessem ter de carga excessiva sobre eles. Esse é o lado positivo. Outros, ao contrário, identificaram os perigos desse poder de identificação. Assim, Platão e depois Santo Agostinho – e, seguindo os passos dele, a Igreja – por muito tempo viram o teatro com desconfiança. Ele engendraria superstições para conjurar os temores ligados aos riscos inerentes à prática dessa arte.

Em primeiro lugar, porque o teatro é apresentado diante de um público – suscetível de se revoltar, por exemplo, se considerar a peça de péssima qualidade. Em seguida, porque as salas de teatro por muito tempo foram iluminadas por meio de (muitas) velas – os incêndios não eram raros. Finalmente, porque os próprios atores não são poupados, tanto no plano físico (alguns morreram por ter colocado todas as suas energias num papel, como Molière em O doente imaginário ou, alguns anos antes, Montfleury ao interpretar os furores de Orestes em Andrômaca), quanto no psicológico (expor-se em público pode induzir a humilhações). As superstições constituem, portanto, um indicador das especificidades dessa arte arriscada que é o teatro. Eis alguns exemplos disso.

É sabido que os atores não pronunciam o nome de Macbeth no interior de um teatro. Em vez disso, eles se referem à “peça escocesa”, e o herói epônimo é simplesmente designado como “M.”. Se um ator quebrar essa regra, ele deve rodear três vezes a construção enquanto corre, cuspir e depois bater três vezes à porta – só entrando se os seus camaradas o autorizarem. Geralmente explica-se essa proibição pelo fato de o teatro de Shakespeare, o Globe, ter sido destruído por um incêndio em 1613, por ocasião de uma representação de Macbeth. Mas isso é falso! Tratava-se de Henrique VIII. A explicação da reputação ruim de Macbeth é bem outra. Aliás, existem várias explicações. A primeira vem do conteúdo da peça, na qual intervêm feiticeiras salmodiando estranhas fórmulas mágicas. Ora, na época, era grande o perigo de tais encantamentos. Outra é de ordem econômica: relativamente curta e bem popular, Macbeth era a peça que se encenava repetidamente para reforçar o caixa quando a situação da trupe estava difícil. Macbeth se ligou ao risco de falência.

Numerosas superstições se relacionam também às condições mais modernas do exercício dessa arte. Uma que passou à linguagem comum: diz-se “merda” a um ator para lhe desejar boa sorte. Do século XVI ao século XIX, os espectadores mais prósperos se dirigiam ao espetáculo em carruagens, de modo que a abundância do estrume diante do teatro era um sinal favorável de que o público tinha vindo em grande número.

Outro costume: não pronunciar a palavra “corda”. A origem dessa proibição vem dos  arpinteiros que construíam as salas, os cenários e a maquinaria. Eles adotaram as práticas dos operários da marinha. A bordo de um navio, cada um dos cabos tem um nome específico: brandal, adriça, escota; a palavra “corda” designa o instrumento de suplício de quem recebia uma punição.

A proibição de assoviar dentro de um teatro tem a mesma origem marítima. Em um barco, o mestre transmite com um apito suas ordens aos marinheiros; por sua vez, o gerente de palco indicava as mudanças de cenário por meio de um apito. Se alguma outra pessoa assobiasse nos bastidores, isso poderia provocar uma manobra inadequada. Outro costume proscreve a cor amarela nas vestimentas. Diz-se que é porque Molière morreu em cena quando vestia roupas dessa cor. Mas não é nada disso: no passado, os tecidos eram tingidos com ingredientes com frequência tóxicos. O amarelo, preparado com óxido de cobre, costumava intoxicar os atores.

No final de uma apresentação, é usual oferecer flores às atrizes, mas é conveniente evitar os cravos. Anteriormente, na Comédie-Française, no final da temporada, o diretor com efeito informava às atrizes da renovação de seu contrato fazendo-lhes entregar, na última apresentação, um buquê de rosas. Um ramalhete de cravos significava que o desempenho delas não havia sido satisfatório. Todos esses exemplos atestam que, entre todos os ambientes profissionais, o mundo do teatro é um dos mais ricos em mitos e lendas supersticiosas específicas.

Alain Viala é professor emérito da Universidade Paris-III Sorbonne nouvelle

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